Tenho lucro, mas onde está o dinheiro?

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A pergunta que intitula esse texto tem sido feita por vários empresários, mormente os de pequeno e médio porte. Em muitos processos de contabilização, os registros contábeis apontam para a aferição de lucro, o que não significa, necessariamente, correspondência de dinheiro em caixa.

A despeito disso, vale ressaltar que os registros contábeis e todo o processo de contabilização são realizados mediante regras e princípios. Nesse sentido, um dos objetivos inerentes à ciência contábil é fornecer informações estruturadas através de demonstrativos contábeis de qualidade e que permitam ao usuário tomar decisões. Para tanto, a contabilidade centra-se em princípios que representam a essência das doutrinas e teorias relativas à ciência da contabilidade, consoante o entendimento predominante nos universos científico e profissional.

Contudo, para o cumprimento desse objetivo, alguns pressupostos precisam ser validados e compreendidos:

  • Os lançamentos contábeis para reconhecimento de receita e de gastos não se relacionam com o fluxo monetário desses eventos. A bem da verdade, os registros contábeis vinculam-se ao momento econômico da geração do evento, não sendo necessário, portanto, para o reconhecimento da receita, a efetiva entrada de fluxo monetário. O mesmo vale para os gastos, que são registrados independentemente de terem sido pagos ou não.
  • Nem todas os gastos de uma empresa são classificados como despesas ou custos. Vários gastos estão relacionados a investimentos em capital de giro ou ativos fixos e, no momento de sua realização, não incorporam o interferem no lucro ou prejuízo do negócio, embora tenha havido dispêndio de dinheiro para esses eventos.
  • Existe dessincronia de conversibilidade entre contas a receber e contas a pagar. Essa dessincronia perpassa pelo tempo e pelo montante de valores envolvidos. Isso quer dizer que o crédito concedido aos clientes pode ultrapassar o crédito dado pelos fornecedores, fazendo com que haja exigência de saídas monetárias derivadas de obrigações a pagar antes das entradas monetárias derivadas de direitos a receber.

 

Talvez o grande problema para o questionamento supracitado resida na gestão de capital de giro. Em suma, o capital de giro das empresas é representado, em grande parte, pelas disponibilidades monetárias (dinheiro em caixa, conta corrente e conta aplicação), pelos estoques e pelos recebíveis de qualquer natureza. Nesse sentido, vale declinar que a ineficiência no planejamento de estoques, bem como a falta de critérios coesos para concessão de crédito a clientes podem alavancar potenciais problemas financeiros empresariais.

Qual o principal objetivo dos estoques? Ouso dizer: ser vendido o mais rápido possível para garantir alto giro e independência de financiamentos de curto prazo. O dimensionamento incorreto dos montantes em estoque pode gerar obsolescência financeira para itens que, por sua gênese, são de giro rápido. Hierarquicamente, entre reduzir créditos para clientes e reduzir estoques, a segunda opção é a que demanda mais foco, já que não é, como o crédito, condição diferencial de venda.

Por seu turno, a concessão de crédito a clientes pressupõe diferenciais e condições de venda. Todavia, as duas maiores preocupações vinculadas a essas decisões são a geração de inadimplência e/ou a necessidade de financiar as operações de giro pela descontinuidade do fluxo financeiro. Nesse sentido, uma política de crédito eficaz seria aquela que não convirja para a dependência de financiamento caro, ao mesmo tempo em que gere inadimplência nula.

Então, em relação à pergunta que abre esse texto, ter lucro e não ter dinheiro é consequência natural da alocação dos gastos e distribuição das receitas entre as contas patrimoniais, mormente aquelas vinculadas ao capital de giro do negócio.

Márcio A. Fischer
CEO
marcio.fischer@zenithpartners.com.br
51 99343-3950

 

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